Não trato todo mundo igual. Trato com equidade e coerência, na medida do respeito direcionado a mim. Acho que as pessoas merecem receber o tratamento que elas despendem. E digo mais, trato quem me foi amável com mais zêlo do que recebi. Acho que o comportamento gentil e atencioso merece retorno dobrado, mas não refugo a ignorar com veemência quem, por ventura, tente me destratar ou desrespeitar. Ou aos meus. Não gosto de puxa-saco, e não gosto de quem pensa que minha gentileza tem interesse envolvido. Em geral, gente folgada sempre pensa que pode fazer com os outros o que quer, acreditando que agimos movidos a algo além de educação pura e simples. Eu não me preocupo em ser mal falada por essas pessoas. É questão de segundos pra que eu vire uma pessoa curta e grossa, passando a devolver com significativa mordacidade o desconforto criado pra me desestabilizar.
Elucubrações de um Louco Brando
"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas." Clarice Lispector
domingo, 4 de janeiro de 2026
quinta-feira, 6 de maio de 2021
Pandemia
Pandemônio
Pior poesia
De um escritor
E se ardia
De febre e sonho
Toda a Insônia
Era outro ardor
Também trazia
A impressão errônea
De que o que sentia
Era normal
Ou pesadelo para um senhor
Que agia como habitual:
Deitou na cama
Antes do banho
E se ajeitou
Para ler jornal
Uma tonteira
Lhe inebriou
Sem sentir cheiro
Zumbido estranho
No seu travesseiro
Culpou o grau
Dos óculos que tinha
E o ar não vinha
Se ele puxava
O 192
Já não discava
E nem medo tinha
Estava precisado de um hospital
Uti móvel
Já estava mal
E o transferiram
Pra outro ramal
Mas o Pour Elise
O fez esquecer
Do endereço
Que era pra dizer
E já não deu tempo
De ouvir o sinal
Desmaiou ali
Na sua marquise
E o seu vizinho logo o amparou
Nesse momento que ele teve a crise
E que a COVID o arrebatou
Mas a ambulância um dia chegou
E já levaram o moço com pressa
Na cabeça era uma compressa
No nariz um respirador
Já não comia
Não conversava
Não se queixava
Ou sentia dor
E o povo rezava
Pra ele voltar
Mas o tal do leito
Que ele ocupava
Foi ficando caro de se pagar
A sua família já não tinha casa,
Já não tinha mais teto para morar
E o Senhorzinho
Se fosse curado
Ia para as ruas
Ter que mendigar
Era uma luta
Era um sufoco
Era um trabalho
Pra ele respirar
E foi no dia da sua melhora
Que o danado ia se salvar
Que a enfermeira toda animada
Bem aliviada foi lhe avisar
Finalmente aquele doente
Tão descreste
Recebia alta
E também soube
Logo em seguida,
Que o hospital ia contratar
Duas vagas seriam abertas
Serviços gerais e auxiliar
E animado, com esperança
Decidiu se candidatar
Mas um tiro reto
O tiro errado
Um tiro certeiro
Atravessou
Bem na janela de onde ele estava
E na testa ele levou
Quando o Senhor anunciava
Seu desejo de trabalhar
No lugar que lhe salvou
Operação policial
Por um furto de celular
Bem na porta do hospital
Enquanto comemorava
Não deu tempo de pensar
Quando menos esperava
N’uma ironia letal
Essa bala lhe acertou.
Desabafo
Os sorrisos foram diminuindo um a um, a cada pessoa vítima dessa doença eram mais 50, 100, 200, 1000 sorrisos a menos, dando espaço para o luto. O luto de mais de 400 mil pessoas. Muitos que pegaram essa doença, se curaram. Eu me curei. Meu organismo me curou! Não existe antídoto para a ignorância e nem para a COVID-19. Mas sabemos que nem todos os organismos se salvam. Chegou uma tempestade na semana passada e levou minha tia. Estar na esfera de um luto em família e lidar com um luto coletivo é muito estranho. O Paulo já te fez rir, né? A dona Hermínia parecia um pouco a sua mãe? Parecia a minha também. E um pouco da minha tia que se foi. Um pouco da minha irmã, um tanto de todas as mulheres que conheço. Até um pouquinho de mim. E eu acho que um ator tão inspirado sempre, não esperava ser o símbolo de uma mensagem tão complicada de se passar: Gente, agora não é hora pra rir! Uma pandemia é uma catástrofe coletiva então esse luto aí que mais de 400 mil famílias estão vivendo, é pra ser vivido coletivamente. Ninguém está bem. Ninguém pode estar bem.
Sim, a gente tem vivido com medo... principalmente nós, que acreditamos na ciência! Tenho visto muitos senhores e senhoras, já vacinados, participando de manifestações Bolsonaristas, do alto dos seus pedestais imunizados, mas aí vai um recado: nós não queremos esse conservadorismo de fachada que vocês tanto apreciam. Vocês são farsantes, abutres da carne de tantas pessoas que agora morrem pra dar espaço pra vocês se manifestarem a favor de um governo purulento e inescrupuloso, um governo que só se interessa por apontar o direito individual dos outros, que vive de fofoca e calúnia mas não respeitam a vida. Não falta mais nada na lista de prioridade dessa corja. Agora eles podem torturar e matar. Não respeitam o amor, a dor alheia, a família como ela é e não respeitam a ciência. Matadores de aluguel, criminosos, facínoras! Continuem manipulando a sociedade para não chegar vacina aos que acreditam na sua eficácia e sigam se vacinando às escondidas... vocês só agem nas encolhas... vociferando discursos anti-vacina para um bando de idiotas inúteis, porque nem uteis eles são. Se a terra é plana, saltem no precipício de suas próprias hipocrisias. E nos deixe respirar, se não por um respirador que não foi comprado, de alívio.
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Universo
Venho acumulando “Universo Interior”. Pra quê tanto? Me perguntei. E ninguém respondeu. Nem ECO fazia, o universo. Sendo universo, não tinha fim, nem começo, nem meio. Era contínuo. Sem eco. Estava lá, acumulando o que não percebia. A gente acumula “universo interior” e não sabe em quê usar. E quanto mais a gente tira coisas de lá, quanto mais a gente limpa, mais universo há. O infinito é mesmo interminável. Acumular universo interior tem seu valor. É o que resta quando todo o resto vai embora. Se o universo é interior, ele não está conosco. Quando eu for, de mim, restará só ele. O universo que há pra dentro que a gente não consegue medir e esse outro, pra fora, também chamado universo, que a gente não pode mensurar. A medida de dentro e de fora é igual. Absolutamente igual em todos os seres. Então penso no tamanho do universo somado ao universo de cada universo pessoal. É por isso que a gente acumula universo. Mas, por mais que tente, por mais que queira, não vai conseguir explicar.
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
Supetão
A gente ficou noivo de supetão. Mas desde o início a gente é meio “de supetão” mesmo. A gente se renova do nada. A gente se amou do nada e a gente começou a viver juntos do nada. Graças a uma pandemia que aconteceu também “de supetão”. Sempre por obra do acaso. Ou por uma “Jesuscidência” como ele gosta de repetir. Não é à toa que a astrologia nos chama: opostos complementares. Eu acho mesmo que sou uma laranja inteira e ele também. Mas há algo dele que, confesso, não havia na minha laranja. Sabe a música de Alladin do “point of view”? Talvez o dele, fosse um dos únicos pontos de vista que não me fossem absolutamente naturais. Ao mesmo tempo, eu lhe mostro minhas 798 versões diferentes. E ele dá risada, porque eu me importo demais! Ou só por rir mesmo, que é o que a gente faz de melhor. A gente tenta ser sério, mas está sempre se zoando. E a gente ri do outro e de nós mesmos. Acho que é esse o maior ganho! A possibilidade de rir das nossas vicissitudes. Acho que a gente se somou muito até aqui. Mas não creio que seja algo visível, não. Só quem está muito perto vai entender. A gente tenta se ajustar do jeito que é. Eu falo de como minha mente é uma confusão e ele mostra a confusão do dia-a-dia dele. No fundo, a gente reconhece que tudo significa a mesma coisa. Que somos um casal em construção. Não negamos os problemas no caminho: algumas pessoas que não iam com minha cara, uns ex que decidiram mandar mensagens, nossos corações levemente feridos com o passar dos anos. É estranho conhecer seu amor depois dos 20 e tantos. A gente já não tem o frescor das músicas do Belchior... somos soldados feridos, cheios de manias e medos! Mas sabe, lindo? Você é a melhor surpresa da minha vida. E o mundo me ensinou que a gente não pode mesmo ter preconceito com o diferente. No fim das contas, conceitos são só conceitos! E é a essência que conta. Somos opostos. Mas a sua essência, o que a gente constrói juntos, o seu mundo interior, talvez seja o mais próximo de mim, que eu já conheci. E descobri com isso tudo que, sempre há algo que precisa ser descoberto, apurado e que a sociedade define muito mal o que é, de fato, afinidade.
terça-feira, 4 de agosto de 2020
O enunciado
A-Professor, o que é pra fazer ?
P- O senhor sabe ler?
A- Sei.
P- Então o faça.
A- Mas não tem nada aqui.
P- Exato!
A- Me desculpe, professor, mas o senhor está sendo muito subjetivo
P- Obrigado.
A- Acho que não entendeu, não foi um elogio.
P- Importa?
A- Não! Claro que não.
P- Vou te dar um 9.
A- Tudo isso? Mas eu nem comecei.
P- Está indo por um bom caminho.
A- Estou muito confuso.
P- É mesmo?
A- Confesso que não entendi nada.
P- Bravo!!! Bravo, meu rapaz. Eu me precipitei. Sua nota é 10.
A- 10? Obrigado.
P- Hmmm... agora você entendeu ou apenas se conformou?
A- Ainda não entendi, mas fiquei feliz pela nota.
P- E você acha isso certo?
A- Não sei se é certo mas também não é errado, creio eu.
P- Querer um bom resultado é natural, mas você precisa levar em conta o processo.
A- O senhor tem razão. (Após um longo período de reflexão, o aluno volta a perguntar) Afinal, o que é pra fazer?
P- Ah! Fique tranquilo, garoto. A sua nota está intacta.
A- Mas eu gostaria de poder fazer algo.
P- Eu sei que sim. Eu também, amiguinho. Eu também.
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Fui me recolher
Sem me resolver