domingo, 4 de janeiro de 2026

Desabafo de domingo

Não trato todo mundo igual. Trato com equidade e coerência, na medida do respeito direcionado a mim. Acho que as pessoas merecem receber o tratamento que elas despendem. E digo mais, trato quem me foi amável com mais zêlo do que recebi. Acho que o comportamento gentil e atencioso merece retorno dobrado, mas não refugo a ignorar com veemência quem, por ventura, tente me destratar ou desrespeitar. Ou aos meus. Não gosto de puxa-saco, e não gosto de quem pensa que minha gentileza tem interesse envolvido. Em geral, gente folgada sempre pensa que pode fazer com os outros o que quer, acreditando que agimos movidos a algo além de educação pura e simples. Eu não me preocupo em ser mal falada por essas pessoas. É questão de segundos pra que eu vire uma pessoa curta e grossa, passando a devolver com significativa mordacidade o desconforto criado pra me desestabilizar. 

quinta-feira, 6 de maio de 2021

 Pandemia 

Pandemônio 

Pior poesia 

De um escritor  

E se ardia 

De febre e sonho 

Toda a Insônia 

Era outro ardor

Também trazia 

A impressão errônea 

De que o que sentia 

Era normal

Ou pesadelo para um senhor

Que agia como habitual: 

Deitou na cama 

Antes do banho

E se ajeitou 

Para ler jornal 

Uma tonteira 

Lhe inebriou 

Sem sentir cheiro 

Zumbido estranho 

No seu travesseiro

Culpou o grau

Dos óculos que tinha 

E o ar não vinha 

Se ele puxava 

O 192 

Já não discava 

E nem medo tinha

Estava precisado de um hospital 

Uti móvel 

Já estava mal 

E o transferiram

Pra outro ramal 

Mas o Pour Elise 

O fez esquecer 

Do endereço 

Que era pra dizer 

E já não deu tempo

De ouvir o sinal 

Desmaiou ali

Na sua marquise 

E o seu vizinho logo o amparou 

Nesse momento que ele teve a crise 

E que a COVID o arrebatou 

Mas a ambulância um dia chegou 

E já levaram o moço com pressa 

Na cabeça era uma compressa 

No nariz um respirador 

Já não comia

Não conversava 

Não se queixava 

Ou sentia dor

E o povo rezava 

Pra ele voltar 

Mas o tal do leito 

Que ele ocupava 

Foi ficando caro de se pagar 

A sua família já não tinha casa, 

Já não tinha mais teto para morar 

E o Senhorzinho

Se fosse curado 

Ia para as ruas 

Ter que mendigar 

Era uma luta 

Era um sufoco 

Era um trabalho 

Pra ele respirar 

E foi no dia da sua melhora 

Que o danado ia se salvar 

Que a enfermeira toda animada

Bem aliviada foi lhe avisar

Finalmente aquele doente 

Tão descreste 

Recebia alta 

E também soube 

Logo em seguida, 

Que o hospital ia contratar 

Duas vagas seriam abertas

Serviços gerais e auxiliar 

E animado, com esperança 

Decidiu se candidatar

Mas um tiro reto 

O tiro errado 

Um tiro certeiro 

Atravessou

Bem na janela de onde ele estava 

E na testa ele levou

Quando o Senhor anunciava 

Seu desejo de trabalhar 

No lugar que lhe salvou

Operação policial

Por um furto de celular 

Bem na porta do hospital 

Enquanto comemorava

Não deu tempo de pensar 

Quando menos esperava 

N’uma ironia letal 

Essa bala lhe acertou. 




Desabafo

 Os sorrisos foram diminuindo um a um, a cada pessoa vítima dessa doença eram mais 50, 100, 200, 1000 sorrisos a menos, dando espaço para o luto. O luto de mais de 400 mil pessoas. Muitos que pegaram essa doença, se curaram. Eu me curei. Meu organismo me curou! Não existe antídoto para a ignorância e nem para a COVID-19. Mas sabemos que nem todos os organismos se salvam. Chegou uma tempestade na semana passada e levou minha tia. Estar na esfera de um luto em família e lidar com um luto coletivo é muito estranho. O Paulo já te fez rir, né? A dona Hermínia parecia um pouco a sua mãe? Parecia a minha também. E um pouco da minha tia que se foi. Um pouco da minha irmã, um tanto de todas as mulheres que conheço. Até um pouquinho de mim. E eu acho que um ator tão inspirado sempre, não esperava ser o símbolo de uma mensagem tão complicada de se passar: Gente, agora não é hora pra rir! Uma pandemia é uma catástrofe coletiva então esse luto aí que mais de 400 mil famílias estão vivendo, é pra ser vivido coletivamente. Ninguém está bem. Ninguém pode estar bem. 

Sim, a gente tem vivido com medo... principalmente nós, que acreditamos na ciência! Tenho visto muitos senhores e senhoras, já vacinados, participando de manifestações Bolsonaristas, do alto dos seus pedestais imunizados, mas aí vai um recado: nós não queremos esse conservadorismo de fachada que vocês tanto apreciam. Vocês são farsantes, abutres da carne de tantas pessoas que agora morrem pra dar espaço pra vocês se manifestarem a favor de um governo purulento e inescrupuloso, um governo que só se interessa por apontar o direito individual dos outros, que vive de fofoca e calúnia mas não respeitam a vida. Não falta mais nada na lista de prioridade dessa corja. Agora eles podem torturar e matar. Não respeitam o amor, a dor alheia, a família como ela é e não respeitam a ciência. Matadores de aluguel, criminosos, facínoras! Continuem manipulando a sociedade para não chegar vacina aos que acreditam na sua eficácia e sigam se vacinando às escondidas... vocês só agem nas encolhas... vociferando discursos anti-vacina para um bando de idiotas inúteis, porque nem uteis eles são. Se a terra é plana, saltem no precipício de suas próprias hipocrisias. E nos deixe respirar, se não por um respirador que não foi comprado, de alívio. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Universo


Venho acumulando “Universo Interior”. Pra quê tanto? Me perguntei. E ninguém respondeu. Nem ECO fazia, o universo. Sendo universo, não tinha fim, nem começo, nem meio. Era contínuo. Sem eco. Estava lá, acumulando o que não percebia. A gente acumula “universo interior” e não sabe em quê usar. E quanto mais a gente tira coisas de lá, quanto mais a gente limpa, mais universo há. O infinito é mesmo interminável. Acumular universo interior tem seu valor. É o que resta quando todo o resto vai embora. Se o universo é interior, ele não está conosco. Quando eu for, de mim, restará só ele. O universo que há pra dentro que a gente não consegue medir e esse outro, pra fora, também chamado universo, que a gente não pode mensurar. A medida de dentro e de fora é igual. Absolutamente igual em todos os seres. Então penso no tamanho do universo somado ao universo de cada universo pessoal. É por isso que a gente acumula universo. Mas, por mais que tente, por mais que queira, não vai conseguir explicar. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Supetão

A gente ficou noivo de supetão. Mas desde o início a gente é meio “de supetão” mesmo. A gente se renova do nada. A gente se amou do nada e a gente começou a viver juntos do nada. Graças a uma pandemia que aconteceu também “de supetão”. Sempre por obra do acaso. Ou por uma “Jesuscidência” como ele gosta de repetir. Não é à toa que a astrologia nos chama: opostos complementares. Eu acho mesmo que sou uma laranja inteira e ele também. Mas há algo dele que, confesso, não havia na minha laranja. Sabe a música de Alladin do “point of view”? Talvez o dele, fosse um dos únicos pontos de vista que não me fossem absolutamente naturais. Ao mesmo tempo, eu lhe mostro minhas 798 versões diferentes. E ele dá risada, porque eu me importo demais! Ou só por rir mesmo, que é o que a gente faz de melhor. A gente tenta ser sério, mas está sempre se zoando. E a gente ri do outro e de nós mesmos. Acho que é esse o maior ganho! A possibilidade de rir das nossas vicissitudes. Acho que a gente se somou muito até aqui. Mas não creio que seja algo visível, não. Só quem está muito perto vai entender. A gente tenta se ajustar do jeito que é. Eu falo de como minha mente é uma confusão e ele mostra a confusão do dia-a-dia dele. No fundo, a gente reconhece que tudo significa a mesma coisa. Que somos um casal em construção. Não negamos os problemas no caminho: algumas pessoas que não iam com minha cara, uns ex que decidiram mandar mensagens, nossos corações levemente feridos com o passar dos anos. É estranho conhecer seu amor depois dos 20 e tantos. A gente já não tem o frescor das músicas do Belchior... somos soldados feridos, cheios de manias e medos! Mas sabe, lindo? Você é a melhor surpresa da minha vida. E o mundo me ensinou que a gente não pode mesmo ter preconceito com o diferente. No fim das contas, conceitos são só conceitos! E é a essência que conta. Somos opostos. Mas a sua essência, o que a gente constrói juntos, o seu mundo interior, talvez seja o mais próximo de mim, que eu já conheci. E descobri com isso tudo que, sempre há algo que precisa ser descoberto, apurado e que a sociedade define muito mal o que é, de fato, afinidade.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O enunciado



A-Professor, o que é pra fazer ?


P- O senhor sabe ler? 


A- Sei. 


P- Então o faça. 


A- Mas não tem nada aqui. 


P- Exato!


A- Me desculpe, professor, mas o senhor está sendo muito subjetivo 


P- Obrigado. 


A- Acho que não entendeu, não foi um elogio. 


P- Importa? 


A- Não! Claro que não. 


P- Vou te dar um 9. 


A- Tudo isso? Mas eu nem comecei. 


P- Está indo por um bom caminho. 


A- Estou muito confuso. 


P- É mesmo? 


A- Confesso que não entendi nada. 


P- Bravo!!! Bravo, meu rapaz. Eu me precipitei. Sua nota é 10.


A- 10? Obrigado. 


P- Hmmm... agora você entendeu ou apenas se conformou? 


A- Ainda não entendi, mas fiquei feliz pela nota. 


P- E você acha isso certo? 


A- Não sei se é certo mas também não é errado, creio eu. 


P- Querer um bom resultado é natural, mas você precisa levar em conta o processo. 


A- O senhor tem razão. (Após um longo período de reflexão, o aluno volta a perguntar)  Afinal, o que é pra fazer? 


P- Ah! Fique tranquilo, garoto. A sua nota está intacta. 


A- Mas eu gostaria de poder fazer algo. 


P- Eu sei que sim. Eu também, amiguinho. Eu também. 


sexta-feira, 1 de maio de 2020


Te encontrar 
E não saber 
Ser assim parada 
Inexplorada por você 
De forma passiva 
Decidida a me esconder 
Fui me recolher 
Sem me resolver 
Logo você veio 
E me fez compreender 
Me surpreender 
Me enaltecer 
E eu cresci em mim 
E agora sim posso viver 
De arte 
Pela arte 
Sem me sugar 
Sem me vender
Você soube bem me ensinar 
como crescer 
Fui sem me perder 
E só