sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Universo


Venho acumulando “Universo Interior”. Pra quê tanto? Me perguntei. E ninguém respondeu. Nem ECO fazia, o universo. Sendo universo, não tinha fim, nem começo, nem meio. Era contínuo. Sem eco. Estava lá, acumulando o que não percebia. A gente acumula “universo interior” e não sabe em quê usar. E quanto mais a gente tira coisas de lá, quanto mais a gente limpa, mais universo há. O infinito é mesmo interminável. Acumular universo interior tem seu valor. É o que resta quando todo o resto vai embora. Se o universo é interior, ele não está conosco. Quando eu for, de mim, restará só ele. O universo que há pra dentro que a gente não consegue medir e esse outro, pra fora, também chamado universo, que a gente não pode mensurar. A medida de dentro e de fora é igual. Absolutamente igual em todos os seres. Então penso no tamanho do universo somado ao universo de cada universo pessoal. É por isso que a gente acumula universo. Mas, por mais que tente, por mais que queira, não vai conseguir explicar. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Supetão

A gente ficou noivo de supetão. Mas desde o início a gente é meio “de supetão” mesmo. A gente se renova do nada. A gente se amou do nada e a gente começou a viver juntos do nada. Graças a uma pandemia que aconteceu também “de supetão”. Sempre por obra do acaso. Ou por uma “Jesuscidência” como ele gosta de repetir. Não é à toa que a astrologia nos chama: opostos complementares. Eu acho mesmo que sou uma laranja inteira e ele também. Mas há algo dele que, confesso, não havia na minha laranja. Sabe a música de Alladin do “point of view”? Talvez o dele, fosse um dos únicos pontos de vista que não me fossem absolutamente naturais. Ao mesmo tempo, eu lhe mostro minhas 798 versões diferentes. E ele dá risada, porque eu me importo demais! Ou só por rir mesmo, que é o que a gente faz de melhor. A gente tenta ser sério, mas está sempre se zoando. E a gente ri do outro e de nós mesmos. Acho que é esse o maior ganho! A possibilidade de rir das nossas vicissitudes. Acho que a gente se somou muito até aqui. Mas não creio que seja algo visível, não. Só quem está muito perto vai entender. A gente tenta se ajustar do jeito que é. Eu falo de como minha mente é uma confusão e ele mostra a confusão do dia-a-dia dele. No fundo, a gente reconhece que tudo significa a mesma coisa. Que somos um casal em construção. Não negamos os problemas no caminho: algumas pessoas que não iam com minha cara, uns ex que decidiram mandar mensagens, nossos corações levemente feridos com o passar dos anos. É estranho conhecer seu amor depois dos 20 e tantos. A gente já não tem o frescor das músicas do Belchior... somos soldados feridos, cheios de manias e medos! Mas sabe, lindo? Você é a melhor surpresa da minha vida. E o mundo me ensinou que a gente não pode mesmo ter preconceito com o diferente. No fim das contas, conceitos são só conceitos! E é a essência que conta. Somos opostos. Mas a sua essência, o que a gente constrói juntos, o seu mundo interior, talvez seja o mais próximo de mim, que eu já conheci. E descobri com isso tudo que, sempre há algo que precisa ser descoberto, apurado e que a sociedade define muito mal o que é, de fato, afinidade.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O enunciado



A-Professor, o que é pra fazer ?


P- O senhor sabe ler? 


A- Sei. 


P- Então o faça. 


A- Mas não tem nada aqui. 


P- Exato!


A- Me desculpe, professor, mas o senhor está sendo muito subjetivo 


P- Obrigado. 


A- Acho que não entendeu, não foi um elogio. 


P- Importa? 


A- Não! Claro que não. 


P- Vou te dar um 9. 


A- Tudo isso? Mas eu nem comecei. 


P- Está indo por um bom caminho. 


A- Estou muito confuso. 


P- É mesmo? 


A- Confesso que não entendi nada. 


P- Bravo!!! Bravo, meu rapaz. Eu me precipitei. Sua nota é 10.


A- 10? Obrigado. 


P- Hmmm... agora você entendeu ou apenas se conformou? 


A- Ainda não entendi, mas fiquei feliz pela nota. 


P- E você acha isso certo? 


A- Não sei se é certo mas também não é errado, creio eu. 


P- Querer um bom resultado é natural, mas você precisa levar em conta o processo. 


A- O senhor tem razão. (Após um longo período de reflexão, o aluno volta a perguntar)  Afinal, o que é pra fazer? 


P- Ah! Fique tranquilo, garoto. A sua nota está intacta. 


A- Mas eu gostaria de poder fazer algo. 


P- Eu sei que sim. Eu também, amiguinho. Eu também. 


sexta-feira, 1 de maio de 2020


Te encontrar 
E não saber 
Ser assim parada 
Inexplorada por você 
De forma passiva 
Decidida a me esconder 
Fui me recolher 
Sem me resolver 
Logo você veio 
E me fez compreender 
Me surpreender 
Me enaltecer 
E eu cresci em mim 
E agora sim posso viver 
De arte 
Pela arte 
Sem me sugar 
Sem me vender
Você soube bem me ensinar 
como crescer 
Fui sem me perder 
E só 

sábado, 28 de março de 2020

O mito da inteligência emocional

Todos dizem que quociente intelectual é intelecto e quociente emocional é inteligência “sentimental”. Balela! É intelectual quem não luta pra sobreviver? Sob a lógica animal o instinto diz que sobrevive quem é fisicamente mais forte. Com os humanos então é diferente? Não é. O fraco fisicamente que sobrevive é o maior dos inteligentes porque sobreviveu com a força de sua mente. Autocontrole é uma arma poderosíssima. Inteligência emocional continua sendo a única forma de se manter vivo, ainda que o QI seja o único aceito pela academia. Então a academia está certa? Não. Em momentos de crise, como esse, é mais forte quem ousa sobreviver. Aos medos, às fake news, às pressões, ao medo de quebrar. Só sobrevive quem é forte o suficiente pra existir em situações adversas. E isso é muito mais do que um livro pode ensinar.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Não se monte no pseudo. 

Não se monte. No pseudo. Intelectual, cult, artista. Pseudo ou semi. Semi-conhecido, semi-nu. Não é que seja feio ser sub. Celebridade. Pode ser. Seja tudo. Isso. Sem reforçar. Se montar na imagem do sub é duro. Osso, isso. No mundo tem aos montes. Ironicamente se tornam maiores os que sabem disso. Não se fazem nisso. Rir de si. Essencial. Esquecer dos outros. Dádiva. Apontar o equívoco sendo o equivocado. Mole. Esquivar-se da própria insignificância. Infantil. Não é brincadeira, eu já vi. Conheço aquele produtor de elenco, agora vou ironizar os artistas que não são amigos dele. Conheço esse livro, agora vou menosprezar o leitor voraz que não o leu. Conheço aquela música, portanto, vou questionar o ouvido absoluto daquele que não a ouviu. Quem não reconhece a síndrome dos pequenos poderes jamais será capaz de combater os grandes. 
Como você escolheu amadurecer? Meus últimos meses na casa dos 20 têm sido em #Quarentena. Mas o que isso significa? Acho que pode ser mais uma prova de que os 20’s nunca foram a minha idade. A proximidade dos 30 está me fazendo mais viva, firme, completa e tranquila do que nunca. Acho que não me sinto tão próxima a mim desde os 18 anos. Escrever se tornou uma prisão, no entanto. Não consigo me concentrar em meus afazeres se um texto salta e decide tomar todo o espaço. Por isso, estou aqui. A vida tem ciclos e, talvez, seja bom estar me despedindo dessa década assim. Confinada. Os últimos 10 anos da minha vida foram intensos e confusos. Aprendi muito mas descobri que tem algo em mim que não pode ser mudado. Ou melhor, que eu não quero mudar. Tudo bem querer se segurar em certas coisas também. Não há mal nisso, eu aprendi. E venho crescendo muito nesses últimos anos, bastante nesse último mês. Crescer na maturidade tem a ver com se recolher. Com o tempo, a gente percebe que não cresce quem se infla. Não é sem razão que outro dia me peguei pensando em modelos diferentes de amadurecimento. 
Sabe? Eu acho que gosto disso. Penso que finalmente estou entrando onde eu sempre quis estar. Mas não me iludo, ainda há muito por vir. Eu acredito.  Não creio que será possível agora, mas a meta é clara: nas próximas décadas continuarei treinando para alcançar uma feição que imprima o nível de desprezo da Bette Davis. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Como eu vou viver nesse mundo de prodígios,
sem ser ninguém.
Pense no meu mundo.
Depois dos 30, o que resta é ser mudo.
E se eu mudo, já não dá mais tempo.
O tempo me largou no vento,
E solta eu já sei que não serei mais nada.
O que tinha de ser,
Será que já sou?
Se sou, sou fadada a ser calada.
Mal falada.
Rejeitada até morrer.
Sem saber o que eu teria sido.
Se pudesse ser.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

(Eu não faço questão)


Eu não faço. Eu não peço . Eu não quero. Tanto faz. Eu não tenho. Eu não ligo. Não me importa, nunca mais. Eu não acho. Nada disso. Nem te conto. Não, valeu. Eu não compro. Não me meça. Não me peça. Não me deu. Eu não posso. Nunca soube. Não disseram. Não pedi. Não me falem. Não me esperem. Não me digam. Eu não vi.