A gente ficou noivo de supetão. Mas desde o início a gente é meio “de supetão” mesmo. A gente se renova do nada. A gente se amou do nada e a gente começou a viver juntos do nada. Graças a uma pandemia que aconteceu também “de supetão”. Sempre por obra do acaso. Ou por uma “Jesuscidência” como ele gosta de repetir. Não é à toa que a astrologia nos chama: opostos complementares. Eu acho mesmo que sou uma laranja inteira e ele também. Mas há algo dele que, confesso, não havia na minha laranja. Sabe a música de Alladin do “point of view”? Talvez o dele, fosse um dos únicos pontos de vista que não me fossem absolutamente naturais. Ao mesmo tempo, eu lhe mostro minhas 798 versões diferentes. E ele dá risada, porque eu me importo demais! Ou só por rir mesmo, que é o que a gente faz de melhor. A gente tenta ser sério, mas está sempre se zoando. E a gente ri do outro e de nós mesmos. Acho que é esse o maior ganho! A possibilidade de rir das nossas vicissitudes. Acho que a gente se somou muito até aqui. Mas não creio que seja algo visível, não. Só quem está muito perto vai entender. A gente tenta se ajustar do jeito que é. Eu falo de como minha mente é uma confusão e ele mostra a confusão do dia-a-dia dele. No fundo, a gente reconhece que tudo significa a mesma coisa. Que somos um casal em construção. Não negamos os problemas no caminho: algumas pessoas que não iam com minha cara, uns ex que decidiram mandar mensagens, nossos corações levemente feridos com o passar dos anos. É estranho conhecer seu amor depois dos 20 e tantos. A gente já não tem o frescor das músicas do Belchior... somos soldados feridos, cheios de manias e medos! Mas sabe, lindo? Você é a melhor surpresa da minha vida. E o mundo me ensinou que a gente não pode mesmo ter preconceito com o diferente. No fim das contas, conceitos são só conceitos! E é a essência que conta. Somos opostos. Mas a sua essência, o que a gente constrói juntos, o seu mundo interior, talvez seja o mais próximo de mim, que eu já conheci. E descobri com isso tudo que, sempre há algo que precisa ser descoberto, apurado e que a sociedade define muito mal o que é, de fato, afinidade.
"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas." Clarice Lispector
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
terça-feira, 4 de agosto de 2020
O enunciado
A-Professor, o que é pra fazer ?
P- O senhor sabe ler?
A- Sei.
P- Então o faça.
A- Mas não tem nada aqui.
P- Exato!
A- Me desculpe, professor, mas o senhor está sendo muito subjetivo
P- Obrigado.
A- Acho que não entendeu, não foi um elogio.
P- Importa?
A- Não! Claro que não.
P- Vou te dar um 9.
A- Tudo isso? Mas eu nem comecei.
P- Está indo por um bom caminho.
A- Estou muito confuso.
P- É mesmo?
A- Confesso que não entendi nada.
P- Bravo!!! Bravo, meu rapaz. Eu me precipitei. Sua nota é 10.
A- 10? Obrigado.
P- Hmmm... agora você entendeu ou apenas se conformou?
A- Ainda não entendi, mas fiquei feliz pela nota.
P- E você acha isso certo?
A- Não sei se é certo mas também não é errado, creio eu.
P- Querer um bom resultado é natural, mas você precisa levar em conta o processo.
A- O senhor tem razão. (Após um longo período de reflexão, o aluno volta a perguntar) Afinal, o que é pra fazer?
P- Ah! Fique tranquilo, garoto. A sua nota está intacta.
A- Mas eu gostaria de poder fazer algo.
P- Eu sei que sim. Eu também, amiguinho. Eu também.