quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Penso, logo existo. 
Existindo repenso. 
Com o tempo descarto. 
Se descarto, não resisto. 
Se pensas, repensas. 
Se repensas descartas. 
Penso, logo repenso. 
Não resisto. 
Repenso e existo. 
Só insisto nos descartes. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Só me prometa uma coisa. Promete que não vai ficar comigo pelo meu papo legal, pelo meu cabelo desordenado. Não fica comigo porque meu sorriso é bonito e porque eu sei falar sobre Deus. E estou contigo no feriado. Promete que você não está aqui só porque é cômodo, porque sua família me aceita. Ou porque eu digo que te amo, porque amo, mas promete que isso não importa quando a gente se deita. Promete que não liga pra meus olhos grandes e meu quadril largo. Promete que não esta comigo por eu ter um humor instável. E um passado amargo. Promete que é por desejo, por amor, que me embaraça. Promete que sonha com meu gosto, com meu cheiro, com minha boca. Goza comigo. Me abraça. Mas não seja tão sensato. Promete que sente falta da minha pele, porque não sou só sua amiga. Promete que vai gostar de restaurante mas vai provar da minha comida. E que vai ser destino, redemoinho ou só rasante de vento. Mas promete que o que eu sinto é de verdade pra você. Um alento. Não suporto mais a incerteza da parte mais crua, equivocada, mais leviana da paixão. Não suporto ver nosso amor à deriva por uma racionalidade falsa, enganada e solitária. Promete não me deixar abalada, por coisas vãs como um beijo. Sei que disse que não pode me prometer nada. Aceito essa verdade. Mas promete que enquanto está comigo sou só eu e mais ninguém. E as desculpas tão criadas pra evitar o meu contato, promete que são fato, só pra não parecer desdém. E quando não houver desculpas, empecilhos ou friezas, promete mais certezas e não culpe o tempo por nós dois. Se me ama, ama agora. Tira o elmo de guerreiro e não nos deixa pra depois. 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Uma pessoa pode colocar a visão dela das coisas e ficar tudo bem. Pode ser uma compreensão da bíblia, por exemplo, está bem? A minha interpretação do mesmo texto pode ser diferente e tudo bem. Eu posso conviver com a opinião de uma pessoa que discorda do que eu digo muito bem. Eu posso ouvir uma palestra inteira de alguém falando o que majoritariamente eu discorde e isso não irá me impedir de respeitar o direito que a pessoa tem de expressar a opinião dela, como ela bem entende. Inclusive eu posso filtrar o que ela disse e aderir ao que ressoa em mim, na minha compreensão. Tudo bem. Uma pessoa pode entender o texto que eu estou escrevendo de forma atravessada e está tudo bem. Ainda assim é meu texto com minhas informações e com minhas referências de vida. Impedir que eu escreva, que eu publique, que eu fale, que eu te ouça, mesmo discordando de quase tudo o que você diz não, não é para o bem. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

“O ator é solitário”, “o artista é sozinho”, nossa geração já lutou muito pra desmistificar essas frases tão avessas ao que entendemos por arte. Sempre me interessou uma compreensão coletiva de tudo. Não gosto de aprender nada sozinha. Nunca gostei. E não estou sozinha nisso. Mas, hoje em dia, eu compreendo o que os meus mestres quiseram dizer: artista é artista no íntimo, no que enxerga das coisas, no que acredita. Não é que sejamos solitários em nossa arte, não é isso. Somos únicos. Porque somos indivíduos com percepções, aprendizados e experiências diferentes. Não se torna artista. Se é. As vezes mais, as vezes menos. Hoje me coloco como a menor das artistas. Não que eu atribua a necessidade de se receber louros à arte,  hoje entendo que, na verdade, é o louro o verdadeiro avesso ao pensamento artístico. E reconhecer o significado profundo de criar e se saber criação, não há louro que pague. Enxergar verdadeiramente que a arte que há em você é bem mais significativa e bela que você na arte. Tão simples, tão óbvio. Difícil, no entanto. Por isso, o carinho de quem cuidadosamente ensina, se torna maior que o produto em si. O processo se vê arte e o resultado nos esvazia. Se tive dúvidas de que o artista é só, hoje sei que o é. E não digo isso porque a arte nos impossibilite perceber o entorno, ao contrário, a atitude artística olha a vida de um jeito tão detalhado e minucioso que a realidade se torna oblíqua. Difícil de definir com apenas um dos cinco sentidos. E completo que sou a menor por não ter permitido, muitas vezes, que a realidade me tocasse. Me via, me ouvia, sabia o gosto, o cheiro. Mas não me pegava. Me escondi. Soube o que vi e fingi que não via. Me debati pra não me expor e assim, não sofrer. Sem sofrer, não aprendi. E hoje sofro pra aprender. Agora entendo que a solidão de só ter me permitido enxergar tudo, talvez, tenha me feito não participar. Os olhos são os espelhos da alma, os artistas emprestam os seus olhos e o resto pra refletir o mundo e rasgam a alma pra ser exposta à luz. Da razão só se tem o esboço, o resto é emoção e dor de estômago. 

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Escolher estar junto e gostar de alguém é apostar. É preciso certa dose de pretensão, inclusive, para se jogar em alguma coisa desse tipo porque não existem certezas. Nesse all-in descabido, com todas as fichas na mesa, a única certeza que se tem é o toque, o olhar e a palavra do outro. E que aposta louca essa de confiar em quem não se conhece desde sempre, não é mesmo? Há quem jogue sujo. Há quem use de blefe. Roleta russa das mais perigosas essa de se entregar à paixão por alguém que teve um passado, tem um presente e com sorte, terá um futuro. Você mesmo não sabe bem o que vai ser de amanhã, porque pensar que a companhia do outro será perene? Acontece que o ser humano precisa confiar. Ter fé. Amar é ter fé. Fidelidade tem tudo a ver com fé. O infiel nada mais é que um descrente. Um agnóstico do amor, condenado para sempre aos desvarios incontroláveis da carne. Acredito que a insensibilidade seja a maior partidária da infidelidade. O insensível se apaixona pela carne e não se deixa transbordar pelas ondas acachapantes da alma. Pensam que estar na carne é se manter em zona segura. Permitir  que o outro toque apenas a superfície. Bobagem! O ser humano é ingênuo ao pensar que a memória do corpo não é emocional. A memória do corpo é a mais vívida. E a sensação que se obtém da presença de alguém nunca será igual. Pensamos que podemos dominar o corpo, mas na verdade é a mente que tentamos moldar. Ensinamos o que queremos à mente. Mas o corpo registra tudo. Cada mão que  lhe encosta o rosto, está guardada na caixa preta inacessível do seu mais profundo ser. As memórias criadas pelo corpo são inapagáveis e é por isso, que apostamos alto ao pensar que entrando na vida do outro, seremos capazes de fundir completamente os dois corpos. Mas é por essa ingenuidade, por não entendermos que essa missão é inglória, que estamos sempre tentando. E, as vezes, como que por um encanto, a roleta da vida gira e aquela aposta vale a pena porque o corpo não se funde, mas as almas se conectam com o amor, com a fé e com tudo aquilo que é capaz de transformar um ser humano em algo além de si mesmo.