quinta-feira, 6 de maio de 2021

 Pandemia 

Pandemônio 

Pior poesia 

De um escritor  

E se ardia 

De febre e sonho 

Toda a Insônia 

Era outro ardor

Também trazia 

A impressão errônea 

De que o que sentia 

Era normal

Ou pesadelo para um senhor

Que agia como habitual: 

Deitou na cama 

Antes do banho

E se ajeitou 

Para ler jornal 

Uma tonteira 

Lhe inebriou 

Sem sentir cheiro 

Zumbido estranho 

No seu travesseiro

Culpou o grau

Dos óculos que tinha 

E o ar não vinha 

Se ele puxava 

O 192 

Já não discava 

E nem medo tinha

Estava precisado de um hospital 

Uti móvel 

Já estava mal 

E o transferiram

Pra outro ramal 

Mas o Pour Elise 

O fez esquecer 

Do endereço 

Que era pra dizer 

E já não deu tempo

De ouvir o sinal 

Desmaiou ali

Na sua marquise 

E o seu vizinho logo o amparou 

Nesse momento que ele teve a crise 

E que a COVID o arrebatou 

Mas a ambulância um dia chegou 

E já levaram o moço com pressa 

Na cabeça era uma compressa 

No nariz um respirador 

Já não comia

Não conversava 

Não se queixava 

Ou sentia dor

E o povo rezava 

Pra ele voltar 

Mas o tal do leito 

Que ele ocupava 

Foi ficando caro de se pagar 

A sua família já não tinha casa, 

Já não tinha mais teto para morar 

E o Senhorzinho

Se fosse curado 

Ia para as ruas 

Ter que mendigar 

Era uma luta 

Era um sufoco 

Era um trabalho 

Pra ele respirar 

E foi no dia da sua melhora 

Que o danado ia se salvar 

Que a enfermeira toda animada

Bem aliviada foi lhe avisar

Finalmente aquele doente 

Tão descreste 

Recebia alta 

E também soube 

Logo em seguida, 

Que o hospital ia contratar 

Duas vagas seriam abertas

Serviços gerais e auxiliar 

E animado, com esperança 

Decidiu se candidatar

Mas um tiro reto 

O tiro errado 

Um tiro certeiro 

Atravessou

Bem na janela de onde ele estava 

E na testa ele levou

Quando o Senhor anunciava 

Seu desejo de trabalhar 

No lugar que lhe salvou

Operação policial

Por um furto de celular 

Bem na porta do hospital 

Enquanto comemorava

Não deu tempo de pensar 

Quando menos esperava 

N’uma ironia letal 

Essa bala lhe acertou. 




Desabafo

 Os sorrisos foram diminuindo um a um, a cada pessoa vítima dessa doença eram mais 50, 100, 200, 1000 sorrisos a menos, dando espaço para o luto. O luto de mais de 400 mil pessoas. Muitos que pegaram essa doença, se curaram. Eu me curei. Meu organismo me curou! Não existe antídoto para a ignorância e nem para a COVID-19. Mas sabemos que nem todos os organismos se salvam. Chegou uma tempestade na semana passada e levou minha tia. Estar na esfera de um luto em família e lidar com um luto coletivo é muito estranho. O Paulo já te fez rir, né? A dona Hermínia parecia um pouco a sua mãe? Parecia a minha também. E um pouco da minha tia que se foi. Um pouco da minha irmã, um tanto de todas as mulheres que conheço. Até um pouquinho de mim. E eu acho que um ator tão inspirado sempre, não esperava ser o símbolo de uma mensagem tão complicada de se passar: Gente, agora não é hora pra rir! Uma pandemia é uma catástrofe coletiva então esse luto aí que mais de 400 mil famílias estão vivendo, é pra ser vivido coletivamente. Ninguém está bem. Ninguém pode estar bem. 

Sim, a gente tem vivido com medo... principalmente nós, que acreditamos na ciência! Tenho visto muitos senhores e senhoras, já vacinados, participando de manifestações Bolsonaristas, do alto dos seus pedestais imunizados, mas aí vai um recado: nós não queremos esse conservadorismo de fachada que vocês tanto apreciam. Vocês são farsantes, abutres da carne de tantas pessoas que agora morrem pra dar espaço pra vocês se manifestarem a favor de um governo purulento e inescrupuloso, um governo que só se interessa por apontar o direito individual dos outros, que vive de fofoca e calúnia mas não respeitam a vida. Não falta mais nada na lista de prioridade dessa corja. Agora eles podem torturar e matar. Não respeitam o amor, a dor alheia, a família como ela é e não respeitam a ciência. Matadores de aluguel, criminosos, facínoras! Continuem manipulando a sociedade para não chegar vacina aos que acreditam na sua eficácia e sigam se vacinando às escondidas... vocês só agem nas encolhas... vociferando discursos anti-vacina para um bando de idiotas inúteis, porque nem uteis eles são. Se a terra é plana, saltem no precipício de suas próprias hipocrisias. E nos deixe respirar, se não por um respirador que não foi comprado, de alívio.