sexta-feira, 13 de setembro de 2019

“O ator é solitário”, “o artista é sozinho”, nossa geração já lutou muito pra desmistificar essas frases tão avessas ao que entendemos por arte. Sempre me interessou uma compreensão coletiva de tudo. Não gosto de aprender nada sozinha. Nunca gostei. E não estou sozinha nisso. Mas, hoje em dia, eu compreendo o que os meus mestres quiseram dizer: artista é artista no íntimo, no que enxerga das coisas, no que acredita. Não é que sejamos solitários em nossa arte, não é isso. Somos únicos. Porque somos indivíduos com percepções, aprendizados e experiências diferentes. Não se torna artista. Se é. As vezes mais, as vezes menos. Hoje me coloco como a menor das artistas. Não que eu atribua a necessidade de se receber louros à arte,  hoje entendo que, na verdade, é o louro o verdadeiro avesso ao pensamento artístico. E reconhecer o significado profundo de criar e se saber criação, não há louro que pague. Enxergar verdadeiramente que a arte que há em você é bem mais significativa e bela que você na arte. Tão simples, tão óbvio. Difícil, no entanto. Por isso, o carinho de quem cuidadosamente ensina, se torna maior que o produto em si. O processo se vê arte e o resultado nos esvazia. Se tive dúvidas de que o artista é só, hoje sei que o é. E não digo isso porque a arte nos impossibilite perceber o entorno, ao contrário, a atitude artística olha a vida de um jeito tão detalhado e minucioso que a realidade se torna oblíqua. Difícil de definir com apenas um dos cinco sentidos. E completo que sou a menor por não ter permitido, muitas vezes, que a realidade me tocasse. Me via, me ouvia, sabia o gosto, o cheiro. Mas não me pegava. Me escondi. Soube o que vi e fingi que não via. Me debati pra não me expor e assim, não sofrer. Sem sofrer, não aprendi. E hoje sofro pra aprender. Agora entendo que a solidão de só ter me permitido enxergar tudo, talvez, tenha me feito não participar. Os olhos são os espelhos da alma, os artistas emprestam os seus olhos e o resto pra refletir o mundo e rasgam a alma pra ser exposta à luz. Da razão só se tem o esboço, o resto é emoção e dor de estômago.