segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Escolher estar junto e gostar de alguém é apostar. É preciso certa dose de pretensão, inclusive, para se jogar em alguma coisa desse tipo porque não existem certezas. Nesse all-in descabido, com todas as fichas na mesa, a única certeza que se tem é o toque, o olhar e a palavra do outro. E que aposta louca essa de confiar em quem não se conhece desde sempre, não é mesmo? Há quem jogue sujo. Há quem use de blefe. Roleta russa das mais perigosas essa de se entregar à paixão por alguém que teve um passado, tem um presente e com sorte, terá um futuro. Você mesmo não sabe bem o que vai ser de amanhã, porque pensar que a companhia do outro será perene? Acontece que o ser humano precisa confiar. Ter fé. Amar é ter fé. Fidelidade tem tudo a ver com fé. O infiel nada mais é que um descrente. Um agnóstico do amor, condenado para sempre aos desvarios incontroláveis da carne. Acredito que a insensibilidade seja a maior partidária da infidelidade. O insensível se apaixona pela carne e não se deixa transbordar pelas ondas acachapantes da alma. Pensam que estar na carne é se manter em zona segura. Permitir  que o outro toque apenas a superfície. Bobagem! O ser humano é ingênuo ao pensar que a memória do corpo não é emocional. A memória do corpo é a mais vívida. E a sensação que se obtém da presença de alguém nunca será igual. Pensamos que podemos dominar o corpo, mas na verdade é a mente que tentamos moldar. Ensinamos o que queremos à mente. Mas o corpo registra tudo. Cada mão que  lhe encosta o rosto, está guardada na caixa preta inacessível do seu mais profundo ser. As memórias criadas pelo corpo são inapagáveis e é por isso, que apostamos alto ao pensar que entrando na vida do outro, seremos capazes de fundir completamente os dois corpos. Mas é por essa ingenuidade, por não entendermos que essa missão é inglória, que estamos sempre tentando. E, as vezes, como que por um encanto, a roleta da vida gira e aquela aposta vale a pena porque o corpo não se funde, mas as almas se conectam com o amor, com a fé e com tudo aquilo que é capaz de transformar um ser humano em algo além de si mesmo.