Pandemia
Pandemônio
Pior poesia
De um escritor
E se ardia
De febre e sonho
Toda a Insônia
Era outro ardor
Também trazia
A impressão errônea
De que o que sentia
Era normal
Ou pesadelo para um senhor
Que agia como habitual:
Deitou na cama
Antes do banho
E se ajeitou
Para ler jornal
Uma tonteira
Lhe inebriou
Sem sentir cheiro
Zumbido estranho
No seu travesseiro
Culpou o grau
Dos óculos que tinha
E o ar não vinha
Se ele puxava
O 192
Já não discava
E nem medo tinha
Estava precisado de um hospital
Uti móvel
Já estava mal
E o transferiram
Pra outro ramal
Mas o Pour Elise
O fez esquecer
Do endereço
Que era pra dizer
E já não deu tempo
De ouvir o sinal
Desmaiou ali
Na sua marquise
E o seu vizinho logo o amparou
Nesse momento que ele teve a crise
E que a COVID o arrebatou
Mas a ambulância um dia chegou
E já levaram o moço com pressa
Na cabeça era uma compressa
No nariz um respirador
Já não comia
Não conversava
Não se queixava
Ou sentia dor
E o povo rezava
Pra ele voltar
Mas o tal do leito
Que ele ocupava
Foi ficando caro de se pagar
A sua família já não tinha casa,
Já não tinha mais teto para morar
E o Senhorzinho
Se fosse curado
Ia para as ruas
Ter que mendigar
Era uma luta
Era um sufoco
Era um trabalho
Pra ele respirar
E foi no dia da sua melhora
Que o danado ia se salvar
Que a enfermeira toda animada
Bem aliviada foi lhe avisar
Finalmente aquele doente
Tão descreste
Recebia alta
E também soube
Logo em seguida,
Que o hospital ia contratar
Duas vagas seriam abertas
Serviços gerais e auxiliar
E animado, com esperança
Decidiu se candidatar
Mas um tiro reto
O tiro errado
Um tiro certeiro
Atravessou
Bem na janela de onde ele estava
E na testa ele levou
Quando o Senhor anunciava
Seu desejo de trabalhar
No lugar que lhe salvou
Operação policial
Por um furto de celular
Bem na porta do hospital
Enquanto comemorava
Não deu tempo de pensar
Quando menos esperava
N’uma ironia letal
Essa bala lhe acertou.
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